terça-feira, 26 de outubro de 2021

MEU PAI

 



Meu pai comigo da varanda da casa da vovó Maria, mãe dele.

 

    Ainda não teve um dia que não tenha chorado,

    Ainda não tem um dia que eu não acredite, por alguns segundos, que tudo isso é uma mentira,

    Meu pai sempre me ligava, quase todos os dias... a poucos dias atrás o telefone tocou eu olhei a tela e “o vi” ligando... é claro que era outra pessoa...

    A cadeira do computador está com problemas e tentamos desmontar, meu filho e eu, cadeira que ele montou para mim... no último parafuso, meu filho não conseguiu, pedi a cadeira e tentei... eu consegui, foi fácil, senti como se ele estivesse me ajudando... desabei em choro... meu filho continuou...

    A máquina de lavar, que ele usava para lavar minhas roupas, porque eu não tinha ainda, veio para minha casa no domingo... eu só consegui usar na sexta feira seguinte.

    Não eram suas ações, mas sua doação que me emociona... como ele sempre se doou para família, para trabalho, para tudo ele era generoso, prestativo e proativo... menos para ele mesmo... se anulou todos esses anos... se negligenciou...

    Tinha que ter alguém para comprar qualquer coisa p ele... ele mesmo andava rasgado, descalço se fosse o caso... não deixava isso acontecer com a mãe, se ele soubesse que um filho precisava de algo, ele ajudava como podia, quando não podia, se desesperava, na forma de irritação, reclamação e raiva de qualquer coisinha que acontecesse... a Depressão...

    Ele se tornou demasiado pessimista ao longo de uns 26 anos pelo menos... quando sofreu com uma grande decepção no trabalho... saiu dele... Passamos tempos muito difíceis... eu vi meu pai chorar, nunca tinha visto... nem quando o vovô se foi..., mas ele não me via... ele chorava de madrugada, quando todos dormiam... como deve ser pavoroso, ter esposa e 3 filhos dependentes dele e ele sem emprego...

    A mãe sempre foi “do lar”, na verdade ele pediu que ela parasse de trabalhar quando ainda eram namorados. Ele vem de uma criação muito tradicional, em que o homem tinha que prover e sustentar mulher e filhos, e fez isso da forma mais linda que eu já pude observar.  Ele cuidou da saúde da mãe, levou ao dentista, ao oftalmologista. A mãe vinha de família muito pobre e nunca tinha ido ao dentista...

    Três filhos em colégios particulares... meus irmãos migraram para rede pública e eu parei, após reprovar neste mesmo ano, em que ele passou por tudo isso... minha única reprovação até então. Comecei a trabalhar, e terminei o segundo grau, anos mais tarde.

    Desde então, observei meu pai desistindo de si mesmo... vivendo no “piloto automático”, cada vez mais ansioso e deprimido...

    O sentimento de culpa o perseguiu, o desanimo o paralisou... O que o manteve ativo foi ter mulher e filhos para não “desistir” de existir..., mas não vivia mais... o TAG...

    Os amigos mais chegados sabem o quanto eu me desesperava e chorava pelo meu pai, por vê-lo assim e não conseguir fazer nada que o fizesse enxergar uma saída, mudar o foco... eu adoeci também...

    Meu pai sempre foi meu herói, meu ídolo. Não tinha famoso, não tinha figura ilustre, inteligente, inovadora e especial que conseguisse tirar esse posto de meu pai. É claro que admiro muitos, mas ídolo, era ele... Mesmo depois de tudo que o abateu. Porque ele era forte e proativo, mesmo desistindo de si mesmo, ele nunca desistiu da família, passou a existir por isso e apenas isso...

    O pai sempre foi aquele cara caladão, mas muito brincalhão com os mais íntimos e com muitas habilidades e aptidões. Ele não sabia dizer não para filhos, mulher e irmãos... ajudava como podia, agia, era o cara da ação, da mão na massa. Sabia fazer “de tudo”. Era extremamente preocupado com segurança. Quando éramos crianças ele fez uma piscina de concreto, sobre o quintal, minha irmã machucou a boca nela, teve que ir p hospital, levou pontos, quando retornaram do hospital ele quebrou a piscina para que ninguém mais se machucasse ... agora seria só piscina de montar...

    O pai nunca levantou a mão para bater nos filhos, esse “papel” era da mãe, e isso só quando ele não estava em casa. A gente colava nele e ele não deixava a gente apanhar... Às vezes ele batia na gente de brincadeira, colocando uma mão na gente e com a outra batia na própria mão e ficava falando “tem que apanhar”, “vou bater em você” ...

    O pai nunca usou do fato de ser o único provedor da casa para acusar ou reclamar da mãe. O dinheiro que ele ganhava inclusive, ficava sob responsabilidade da mãe, na maior parte das coisas. Ela tinha o controle disso.

    O pai nunca saia com amigos, chegava tarde do trabalho, nunca passou a noite fora de casa, por uma briga ou desentendimento com a mãe. Eles brigavam? Claro. Não tem casal perfeito. Mas ele era sempre o que sedia, o que preferia ter paz a ter razão... se descontrolava? Sim! Às vezes chegava a quebrar coisas da casa... no outro dia vinha ele com a peça nova para substituir, com riso maroto no rosto...

    Foi o cara que não esqueceu que adolescentes são difíceis e fazem ‘m’... Ele sempre dizia para mãe: “É fase”... “Acontece”... nunca brigou com meu irmão por chegar bêbado em casa. Ajudava e limpava o vômito dele, enquanto o papel de repreender era da mãe... não brigava comigo por eu passar da hora na rua, ele dizia para mãe: “está bom, ela já chegou, está bem, vamos dormir”..., mas ele normalmente, argumentava que não dava para ficar fazendo aquilo porque preocupava eles ...

    Com o passar dos anos, essa leveza foi sendo apagada, pelo pessimismo, sentimento de culpa e impotência. Foi ficando muito reclamão, que nada dava certo para ele... por mais que conversasse, nada o fazia enxergar diferente... Ele errava? Não. A doença o fazia ver assim... Não era uma postura incorreta, não era falta de fé, não era frescura, não era fraqueza... Ele estava doente... por muitos anos não via desta forma, apenas queria que ele enxergasse diferente, que lutasse para mudar a situação dele... Mas doença não se trata apenas com conselhos... Precisa de atenção médica...

    O pai passou diversas noites em claro com dores horríveis nos dentes e nada nem ninguém conseguia convencer ele de procurar um dentista (mas ele levou a mãe quando namorados, ele pagava p mãe, mas p ele...) até que ele foi perdendo todos os dentes... como doía ver isso... com muito custo conseguimos leva-lo ao dentista e ele ganhou dentaduras e um novo sorriso... mas levou anos... inclusive não faltava o trabalho por isso.... Coisa de um ano depois fora da empresa que trabalhava ele retornou, em condição ruim, mas ele não se viu com opções para não voltar ...

    O vício do pai era o cigarro... eu odiava, eu odeio ainda o ato de fumar... fumava muito e conforme os anos passavam piorava... tentava parar e voltava sempre, até que o médico foi fatídico: Se continuar, sua diabetes e pulmão não vão aguentar muito tempo. O pai tinha enfisema pulmonar... finalmente conseguiu para, por muita suplica da mãe e dos filhos... mas já estava com o pulmão “ferrado”.

    Quando as clinicas da família foram implantadas no sistema SUS, ele começou com acompanhamento clínico devido a diabetes, tipo 1 e hipertensão. Recebia insulina e outros medicamentos para diabetes. Também o “nervoso” dele foi “tratado” pela clínica da família com calmantes. Ao invés de tratar, só davam “sossega” p ele... Clonazepam era passado por clinico geral, sem acompanhamento de profissional especializado em saúde mental... nunca nem foi encaminhado para tal... na verdade era usado para fazer ele dormir. Mas é um remédio para uso em caso de emergência, em caso de crises, mas enfim.... Acaba que o sistema de saúde público não tem recursos de RH para cuidar de tantos pacientes e só os casos mais “graves” vão para tratamento em um CAPs por exemplo... Bom... enfim...

    Quando o pai aposentou, a rotina mais “lenta” só o deixou mais ansioso e desgostoso. Crises de ansiedade mais frequentes, paranoia de ficar verificando pressão o tempo todo... Dores e mais dores... nos últimos anos, em momentos de desabafo, ele dizia estar com depressão... mas dizia que não tinha o que fazer. A glicose não estabilizava quase nunca.

    Eu “soltei a corda” a mais ou menos uns 6 a 7 anos, com algumas “recaídas” de pedidos e argumentos para tentar leva-lo ao psiquiatra e tentar fazer ele enxergar que não precisava ser como ele seguia fazendo...  Quando eu mesmo já estava tendo crises de pânico, e já estava com os mesmos transtornos.... Mas só fui diagnosticada, a pouco mais de um ano, quando desde então venho me tratando e não tive mais crises...

    Meu pai não partiu literalmente pelo transtorno misto de depressão e ansiedade, foi infarto. Mas eu ouso dizer que se ele tivesse se tratado, cuidado da saúde mental dele, que tivesse conosco pelo mesmo tempo de vida, mas teria vivido muito mais, e não só existido.... Não, meu pai nunca foi sequer diagnosticado com tal transtorno. Eu tenho como certo isso, pelo fato de ter muitas das características do que ele tinha, pelo fato de ter lido muito a respeito, quando comecei a me tratar. Das vezes que conversamos, da forma como ele falava de si mesmo...

    Ele se foi...

    E apesar de tudo, ele foi sim um excelente homem, uma pessoa humana maravilhosa, bondoso, honesto, auxiliador.

    Cuidou de todos ao seu redor da melhor forma. Só não cuidou dele próprio.

    Pois eu vou lutar e não só seguir o seu exemplo, como vou cuidar de mim também. Não vou deixar esse transtorno me apagar. E o que eu puder fazer para ajudar o outro a se enxergar e se ajudar eu também farei.

    Hoje a tristeza e o choro fazem parte da minha rotina, porque é MUITO DIFÍCIL perder alguém que tanto amamos, não é por causa da depressão e da ansiedade, pois estão sendo tratadas e estou estável e muito bem. Só estou vivendo um LUTO absurdo de duro... Ele era meu Norte, e eu tinha tanto para fazer por ele...  

Monica Nunes, escrito em 22-10-2021

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